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domingo, 30 de setembro de 2012

BEM-VINDOS DE VOLTA!


Após um hiato muito sentido pelos cervejeiros do Brasil, a cervejaria curitibana Bodebrown finalmente está de volta. Devido uma paralização forçada para instalação da nova fábrica e aquisição/instalação de novos equipamentos, ela ficou alguns meses sem produzir suas cervejas de linha, como as já clássicas Perigosa, Wee Heavy, Do Amor e Hop Weiss.


Apesar de paralisada, parada totalmente ela não ficou, pois continuou funcionando como escola cervejeira ao ministrar aulas de estilos e produção, sua loja virtual permaneceu vendendo equipamentos e insumos cervejeiros para o público homebrew, e também deu um jeitinho de não sumir totalmente das prateleiras ou dos eventos e festivais cervejeiros, ao apresentar novos lançamentos limitados, com uma variedade de estilos ainda não comercializados por ela, dentre eles Mild Ale (Cara Preta), Black Rye IPA, Tripel, Witbier (Blanche de Curitiba) e até mesmo versões da Hop Weiss com dry hopping do lúpulo neozelandês Nelson Sauvin e do americano Citra. E da mesma forma que não parou de produzir ela também não parou de ganhar prêmios mundo afora e em 2012 ela ganhou muitos. Abocanhou no Mondial de La Bière, em Montreal, a medalha de ouro como melhor Imperial Stout do festival (em 2011 já tinha ganhado ouro com a Wee Heavy). No Australian International Beer Awards ganhou o ouro como Melhor Expositor, e duas pratas, com a Wee Heavy e a Tripel. Já no South Beer Cup ganhou o bronze com a Perigosa Imperial IPA.

Agora já findada a paralização eles retornaram a produtividade e as duas cervejas escolhidas para seu relançamento foram a Wee Heavy, cerveja do estilo Scotch Ale premiadíssima internacionalmente, e a Cara Preta, a única do estilo inglês Mild Ale que conheço no Brasil, cerveja que se caracteriza como uma homenagem aos trabalhadores de minas de carvão que consumiam nos pubs essa cerveja mais fraca, mas que não perdia em sabor, após a jornada do expediente de trabalho.

Logo de alguns festivais que a Bodebrown participou e saiu vitoriosa

Antes mesmo de saber que suas cervejas ficariam um período sem serem produzidas, sem querer fiz um estoque de duas unidades da Wee Heavy, com validade até 11/2012, e menos de dois meses antes de vencida bebi uma garrafa e me surpreendi positivamente ao revisitar essa cerveja que se mostrou com uma maltagem rica e complexa que unida ao teor alcoólico, mais uma lupulagem de evocação mais baixa, mas que nem por isso deixou de ser presente, ela se mostrou com grande potencial à guarda:

A Bodebrown Wee Heavy vertida no copo Pint apresentou uma coloração castanha escura que mostrou nuance avermelhada, rubi, contra a claridade. Apesar do tom fechado ela mostrou alguma limpidez e transparência aos olhos. A sua espuma com um bronzeado bege veio coroando o topo, bem acintosa, boa retenção que parcimoniosamente desceu, mas não antes sem deixar algumas poeiras de sujeiras nas paredes do copo. No olfato ela surgiu com uma maltagem alta e rica, que vieram variedades de cheiros doces, tostados e até mesmo defumados. Um dulçor bem inserido e não enjoativo que trouxe toques caramelados, um pouquinho de açúcar mascavo e até algodão-doce. A tosta ficou complementar e sem persistência. As notas defumadas trouxeram características salgadas à bebida onde surgiu um pouco de carne de porco e um toque mais intenso de molho inglês. Em seguida esse leve salgado foi cortado, conforme a bebida esquentou, e liberou uma esterificação frutada de banana passa, bananada e ameixa seca, bem latentes e carregadas na suculência. Ainda foi possível perceber um pouco de madeira mais para o fim. A lupulagem contribuiu com toques cítricos de laranja, um pouco suculento, mas ainda assim discreto – de repente num lote mais fresco ela poderia se mostrar mais acintosa. O sabor veio no seu início com os dulçores advindos dos maltes e tons caramelizados, calda/açúcar queimados e o algodão doce, que foram quase unânimes no domínio ao longo da golada. Esterificação frutada veio corroborar o dulçor do conjunto e trouxe abacaxi em compota e frutas escuras, como ameixas, passas e bananada. Os tons tostados vieram como no aroma, coadjuvantes, e foi o amadeirado que se sobressaiu mais e deu ares de envelhecimento à bebida junto com os toques de sementes comestíveis, como nozes e um pouco de amêndoas. A sutil defumação agregou tons salgados de carne, sem nenhum esfumaçado ou torrado no conjunto. O álcool foi bem inserido, mas ainda assim presente e que contribuiu com um pouco de amargor de ervas. Com sua volatização o álcool também deu com toques de frutas vermelhas. O amargor do tostado mais rigoroso para o final e o amargor do lúpulo apareceu coadjuvante, mas se pensarmos pela complexidade dos maltes então ele veio forte e rijo, que mesmo com breves nuances foi presente, advindo do tom herbáceo além do cítrico de laranja. A defumação e o tostado ficaram mais fortes para o fim da golada, como se acabássemos de engolir um naco de carne de porco na brasa, por exemplo – claro que nas suas devidas proporções. Seu corpo foi médio a alto, um pouco pesado e licoroso, mas ainda assim cheio de maciez e veludo. A carbonatação foi coadjuvante, pouco sentida e sem atrapalhar o deslizar da bebida na boca. O final dela já foi previamente anunciado, médio-seco, um pouco longo e de residual caramelizado, defumado e tostado, como uma boa costela de porco. O retrogosto perdurou da mesma forma e ainda com um amargor herbáceo cortante. Maltagem complexa e suculenta. Sabe aquela cerveja que após terminar o gole você quer mais e mais?

Bodebrown Wee Heavy - Strong Scotch Ale/Wee Heavy -  7,2% ABV

Certamente a proximidade do vencimento amaciou a cerveja e uma maior longevidade poderia até aprimorá-la mais ainda, porém isso não significa que ela somente deve ser bebida mais velha ou que um lote mais fresco se mostrará ruim, jamais! Ela foi uma das primeiras cervejas da Bodebrown que experimentei tão logo lançadas e uma das que mais gostei, principalmente pela versatilidade na harmonização com pratos fortes, como carnes gordurosas ou queijos robustos, e se fosse diferente, se eu não tivesse gostado dela, não teria investido em envelhecer dois exemplares seus, isso não faria sentido. Partindo do princípio que uma cerveja boa pode ficar melhor ou pior com o tempo, outra certeza é que uma cerveja ruim sempre será ruim independente de sua idade, onde é no primeiro caso que reflete a Wee Heavy, uma boa cerveja cujo envelhecimento a tornou excelente. Portanto vou comprar mais da Wee Heavy e bebê-la o ano todo, deixar meu “velhinho” exemplar sobressalente estocado mais um pouco e após aposentado esperar mais um ou dois anos pra ver como ele se porta. Prometo contar depois, tá?

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