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terça-feira, 30 de outubro de 2012

OKTOBERFEST 2012, BLUMENAU/SC

Vila Germânica - pavilhão com as cervejarias artesanais blumenauenses - Foto: Aline Santiago
   
“Ein prosit”, a frase em alemão cujo significado instantâneo é traduzido no brindar de copos e canecas, foi uma dos mais falados, cantados e bradados hinos da Oktoberfest de Blumenau, que junto com extrovertidos cânticos como “cuida bem, cuida bem, da sua marreca” e “1 barril de chope é muito pouco pra nós”, além do outro vira copos “zicke-zacke, zicke-zacke, hoy, hoy, hoy”, tornou todo mundo presente, vestidos em trajes típicos germânicos ou não, alemães por um dia.

Concurso feminino de chope a metro

Confesso que achei que a segunda maior Oktoberfest do mundo, que só perde para a original de Munique, fosse me decepcionar pelo seu maior atrativo: o consumo desenfreado de cervejas. Mas não. Claro que deve ter acontecido alguma briga ou confusão aqui e ali, embora a Vila Germânica com seus vários pavimentos tivesse uma mega estrutura, ainda assim a quantidade de pessoas em alguns dias foi imensa e, transitar em alguns lugares era complicado. Mas nada que bom humor, paciência, e a sede por mais chopes artesanais e fome por comidas típicas, não compensassem. Na verdade o resultado final foi a sensação de um evento organizado e muito democrático, seja nas atrações, nas comidas e bebidas oferecidas, opções e ambientes para quem não quisesse ficar na muvuca, e uma infra-estrutura de primeira, seja dentro ou fora do evento – pegar um taxi na hora de ir embora não era nada complicado nem exaustivo.

Eisbein (joelho de porco) mais acompanhamentos

A maioria das comidas típicas já estava previamente feita, era só comprar seu tíquete no guichê e levar nos restaurantes onde as serviam. Vinham quentes, mas não feitas na hora, mas nem tinha como vide a demanda do festival, então isso nunca poderia ser considerado um ponto fora. Para quem não era afeito a pratos típicos como Joelhos de Porco, Marrecos ou Chucrutes, tinha opção nas variedades mais comuns como batatas e peixe (típico prato inglês), batata recheada, dentre outros.

Marreco recheado - Foto: Aline Santiago

As bandas entreteram muito o público com músicas típicas alemãs e muitos sucessos populares da rádio FM, mas o melhor foram as versões das músicas germânicas ou no próprio idioma original, inclusive uma destas bandas era da Alemanha e foi ao menos curiosa a versão no idioma germânico que fizeram da música “Ai, se eu te pego” do Michel Teló.

Bierland Pale Ale - English Pale Ale - 4,8% ABV

E as cervejas, o motivo principal da festa? Claro que a nossa querida cervejinha foi a atração principal do festival. Contando com cervejas da região de Blumenau e com chope Brahma, foi interessante observar o acordo de cavalheiros que imperava, afinal de contas não é em todo lugar que encontramos cervejas de grupos cervejeiros rivais, no caso a Schincariol e a AB-Inbev, com suas respectivas Eisenbahn e Brahma, servidas no evento. Algumas outras cervejas que foram servidas restringem suas produções apenas na região, como as cervejarias Das Bier e Wunder Bier, que por não pasteurizarem suas produções e nem engarrafarem podem ser consideradas exclusivas da localidade, funcionando quase como um brado de “apoie sua cervejaria local”.

Bierland Blumenau - Specialty Beer - 4% ABV

Dentre as cervejarias da região, a Bierland contribuiu com 4 chopes (Pilsen, Weizen, Pale Ale e Vinho), além de sua linha de cervejas engarrafas, menos a Imperial Stout e a Strong Golden Ale. Me agradou o chope Pale Ale, com lupulagem bem fresca e com boa base maltada, além de refrescar e com possibilidade de ser bebida várias. Outra que destaquei foi a Blumenau, o mais novo lançamento deles, uma cerveja que buscou resgatar uma antiga receita feita pelos colonizadores alemãs da região.

Wunder Bier Schwarzbier - Schwarzbier - 4,8% ABV


A Wunder Bier também serviu seus chopes, mas confesso que só bebi um deles e me perdoem a pouca memória, apenas recordo de ver servirem o Lager-Hell e o Schwarzbier, não lembro se também tinham o de trigo e de vinho que também produzem. É uma das que apenas servem a região blumenauense.

Eisenbahn Dunkel - Schwarzbier - 4,8% ABV


Além de experimentar os chopes da Eisenbahn, tive a oportunidade de conhecer seu bar-fábrica. Na Vila Germânica todas as cervejas da linha de 300 ml foram servidas e os chopes disponíveis foram o Pilsen, Dunkel, Pale Ale e Weizenbier. O meu preferido foi o Dunkel, com bem evocados toques de café e tostado. Já no bar da fábrica aproveitamos tudo que tínhamos direito, culinária, visitação a fábrica (que infelizmente restringia-se a ficarmos num pequeno espaço sem podermos transitar por ela, mas agraciados com um chope Pilsen tirado diretamente do tanque maturador), bandinha de música alemã, mas que também tocava forró, e beber muita, muita cerveja e degustar o Bierlikor e a Lust, cuja dose e a garrafa de 750 ml, respectivamente, eram muito baratos se comparados com os preços normalmente praticados em outras regiões do país.

Eisenbahn  Lust - Bière Brut - 11,5% ABV
Eisenbahn - Oktoberfest/Märzen - 6% ABV


Outra cervejaria que recebeu uma visitação foi a Das Bier, localizada no bairro de Gaspar. Funcionando também com um Pesque e Pague no local, que na verdade surgiu bem antes que a cervejaria, o lugar é um espetáculo aos olhos, lindo! Muitos lagos para pesca, muito verde, flores bem cuidadas, uma bela vista mesmo com o tempo um pouco fechado no dia e uma agradável opção para passar uma tarde inteira. A visitação a fábrica foi mais completa que na Eisenbahn, conhecemos seu interior acompanhados do garçom/guia que nos explicou os processos de produção até onde ia o seu conhecimento – o mestre cervejeiro, Seu Antonio, não se encontrava naquele dia na fábrica – mas tudo bem apresentado e explicado. No restaurante, assim como já tínhamos observado na Eisenbahn, as comidas foram fartas e com preços muito bons. Pedimos um kit degustação dos 7 chopes (apenas 5 reais!) e nos fartamos com provolone à milanesa, salsichas alemãs e hackepeter, literalmente comida para um batalhão de ogros. Na saída comprei um sifão/growler de 2 litros com a minha cerveja preferida de Blumenau (que só não foi a que mais consumi na Vila Germânica porque era a mais cara, custava 2 tíquetes), a Stark Bier, cerveja colaborativa feita por 6 cervejarias de vários estados do Brasil e que foi feita no Festival Brasileiro da Cerveja em março de 2012, portanto uma edição limitada.

Das Bier Cervejaria - Foto: Aline Santiago
Pesque e Pague Schmitt - Foto: Aline Santiago
Equipamento da clarificação da cerveja Pilsen




Salsichas alemãs e Hackepeter - Foto: Aline Santiago


Kit degustação dos chopes Das Bier - Foto: Aline Santiago

Quando batia aquela fome de madrugada não tinha lugar melhor a recorrer que o Madrugadão Lanches, um bar/restaurante que fabrica a própria cerveja, na verdade várias. Fui esperando provar sua Doppelbock e Brown Ale, mas por serem sazonais, feitas apenas no período de inverno, não tinham produzido. Como opção tinham a Pilsen, a Pilsen não filtrada e Weizen Rauch, cerveja de trigo defumada. Cervejas muito leves de beber e sem grande destaque, mas que acompanham bem os fartos pratos, petiscos e sanduíches servidos.

Oktobier Rauch Weiss - Rauchbier - ?% ABV
Chopes Oktobier no Madrugadão 

No último dia antes de embarcarmos de volta ainda conheci o München Biergarten, localizado dentro de um shopping e administrado pelo mestre-cervejeiro Rodolfo Rebelo, recém formado na Alemanha, que também presta seus serviços e consultoria a algumas cervejarias da região, como por exemplo a Schornstein, de Pomerode. Seu espaço é abastecido com os Chopps Pilsen, Weiss, e Escuro, de uma cervejaria de Criciúma, a Strauss Bier.

München Biergarten - Shopping Neumarkt


Strauss Chopp Escuro - Bock - 5,8% ABV




E por último foi a vez de conhecer o Museu da Cerveja. Com um acervo contando com antigos equipamentos usados em produções de cerveja além de outras várias relíquias, como coleção das primeiras garrafas da Eisenbahn e uma chopeira no formato dos pinguins da Antarctica. Também foi exibido um curta-metragem mostrando todas as cervejarias artesanais da região de Blumenau.


Garrafas e antigos rótulos da Eisenbahn, e outros souvenirs


Chopeira usada nas primeiras festas da Oktoberfest
"Burrinho": da maturação para a filtração

Chopeira da Antarctica

Encerro essa (longa) postagem com a análise da Stark Bier, minha preferida do festival. Uma cerveja do estilo Strong Scotch Ale e que por levar adição de rapadura na receita, a Das Bier a classificou como “um chope de raízes escocesas com um toque tupiniquim”:

O líquido da Stark Bier veio com cor castanha de quase tom mogno, fechada e turva, com reflexos avermelhados contra a luz. A espuma cor bronzeada, bege, criou um colarinho cremoso e rijo que caiu sonolentamente e deixou camadas de sujeira. O cheiro veio com um dulçor intenso no início com alta e rica maltagem que agregou tons achocolatados à cerveja, desde nuances de cacau, chocolate ao leite e até toques de chocolate amargo e escuro. A rapadura, utilizada na receita, foi plenamente sentida. Toques amadeirados e cheiros de sementes comestíveis como castanhas e avelãs, e ainda algum amendoado. Muita esterificação de frutas escuras e secas, com muita uva passa e ameixa, e insinuações de frutas vermelhas/silvestres. O álcool foi equilibrado e quase imperceptível no aroma. Muita presença de caramelo, toffee, biscoito waffer e grãos torrados. Leve defumação e toque turfado. A lupulagem percebida, embora não acintosa, apareceu com tons herbais e verdes, afora um leve cítrico de laranja caramelizada, queimada. Aroma complexo, rico. O sabor deu prosseguimento no já advindo pelo aroma, com a presença do biscoito doce, da rapadura e da bem latente esterificação das frutas escuras e secas (passas e ameixas). Muito caramelo e toffee. O álcool foi mais agressivo, picante, acalentador, amargo e mentolado, que deixou resquícios de ervas na boca. A tostagem também deu tons amargos ao paladar. Sabores de chocolate ao leite e uma leve defumação de carne de porco, mas sutil. O corpo foi cheio, nem grosso nem licoroso, mas com pompa e um pouco de peso. A carbonatação foi baixa e praticamente nula. A lupulagem surgiu mais ao final do gole, com herbal de ervas temperadas e picantes bem persistentes, cítrico de grapefruit com amargor característico. O final se apresentou doce e alcoólico, retrogosto amargo da lupulagem. Excelente cerveja colaborativa, que perde um pouco em drinkability, mas ganha muito em complexidade e personalidade.

Das Bier Stark Bier - Strong Scotch Ale - 8,3% ABV

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