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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

WORLD BEER AWARDS 2012 – AS BRASILEIRAS



O World Beer Awards deste ano premiou cinco cervejas brasileiras como as melhores das Américas dentro de suas categorias disputadas onde duas foram além e também conquistaram o prêmio de melhores do mundo nos seus estilos.

Esse concurso inglês que ocorre anualmente é um dos mais conceituados que existem, com milhares de representantes do globo enviando suas cervejas para concorrerem entre as melhores cervejas do mundo, portanto não é pouca coisa essa vitória das brasileiras. Mas também não é nenhuma novidade essa vitória, já que desde 2008, com a Eisenbahn, nossas cervejas começaram a ser premiadas no WBA, mantendo uma constância desde então com tendência a perdurar e aumentar vide o maior número de ganhadoras ano a ano. Claro que o Brasil está apenas no começo dessa notoriedade, engatinhando e ganhando quase como azarão, onde o predomínio de cervejas campeãs ainda é majoritariamente entre as clássicas europeias e as inventivas americanas.

Como eu tinha no meu estoque algumas destas cervejas premiadas, por que não degustá-las devidamente e atestar sua qualidade? Começando com as premiadas brasileiras, a Bamberg Schwarzbier (melhor Dark Lager do mundo e das Américas) se destaca, assim como as demais da cervejaria Bamberg, por ser uma cerveja da escola alemã, assim como todas as outras cervejas de linha da cervejaria – excetuando-se algumas sazonais – e essa “cerveja preta” serve para desmitificar o errôneo consenso popular que cervejas escuras são excessivamente doces, aconselhadas para gestantes ou ainda bons fortificantes principalmente se consumidas tão logo pela manhã acompanhadas de uma boa gemada. Ela também é a prova que uma cerveja não-alemã pode recriar a perfeição um clássico estilo germânico e se bobear ainda melhor que muitas similares de origem.

A Bamberg Schwarzbier apresentou cor castanha escura, que lembrou café, aspecto fechado, mas com alguns reflexos avermelhados contra a luz. Sua espuma bege teve uma criação alta e rija na fixação, aspecto aerado, que caiu com bastante lentidão, não sem antes sujar bastante os lados da taça e se fixar no líquido em camadas. Seu aroma teve uma presença maciça dos maltes, onde sobressaíram os tons tostados e de panificação. Uma evocação média e intensa de casca de pão e pão preto, grãos tostados que trouxeram nitidez de café, e um toque envolvente de castanhas cozidas e que evoluíram para os amendoados. Leve esfumaçado e um sutil alcatrão mais ao fundo. Notas amargas e salgadas advindas da tostagem. Sensação de uma maltagem rica e de leve complexidade. Com o esquentar o café foi ficando mais intenso e ainda mais nítido, além de desprender breves toques de chocolate amargo, chegando ao ponto salivar a boca. Então vamos beber, oras! O sabor começou com a torrefação dominando, mas que deu passagem para alguns dulçores de pão preto e caramelo sobressaírem. Os sabores de alcatrão e café eram intensos e suculentos, ainda mais com a união da esterificação de frutas secas e escuras, com presença de passas e ameixas, além dos toques esfumaçados, resultando numa persistência tostada e quase torrada de defumação, que deixou um fim adstringente. Parecia mastigar bombons trufados com recheio de uvas passas. O corpo é leve e bem fácil de beber e a carbonatação vem média-alta muito borbulhante que chega a pinicar a língua. O fim é seco e um pouco longo, de residual doce e torrado. O retrogosto é impregnado de amargor torrado.
Bamberg Schwarzbier - Schwarzbier - 5% ABV 

A Bierland, também duplamente premiada com sua Vienna (melhor Amber/Vienna Lager do mundo e das Américas), é uma cervejaria que não é tão rija no seguimento de recriar estilos de apenas uma escola cervejeira. Têm cervejas da escola belga, inglesa, alemã e até brasileira, através da recrição de uma antiga receita consumida por colonizadores no sul do país. A premiada Vienna, cujo estilo tem origem austríaca, tem poucos pares ao redor do mundo – o estilo não é amplamente produzido –, e principalmente no Brasil ela não tem muitas concorrentes. Já foi aderida pelos brasileiros e se bobear é o carro-chefe da cervejaria.

A Bierland Vienna mostrou uma cor de intenso acobreado, com vastidão de bolhas que subiram em uníssono até o topo, brilhante e de transparência total, onde se enxergou o outro lado da taça nitidamente. Sua espuma teve formação esplendorosa, tom levemente bronzeado, boa retenção e firme, além de aspecto cremoso, e que deixou camadas de sujeiras nos lados quando caiu. O aroma evocou bem a maltagem intensa e suculenta, onde contribuiu com notas de muito caramelo, calda de açúcar e melaço. Ainda toques de mel e grãos. A tostagem surgiu angariando notas de fumo, mas sem agredir em nenhum momento o conjunto. Frutado de tangerinas foi bem vívido e fresco, vindo da lupulagem mais contida e não agressiva, mas relevante como foi inserida.  O sabor começou com a lupulagem mais intensificada e similar no aroma ao evocar o frutado fresco de frutas cítricas, de destacada tangerina, alguns breves e fugazes toques verdes de ervas pouco picantes e diluídas, além de tons resinosos e persistentes. A maltagem que surgiu em equilíbrio aos lúpulos inicialmente, em seguida ficou mais dominante e veio com os dulçores de caramelos, açúcares e muito pão, relegou a tostagem o papel de deixar um amargor, mas num tom muito bem inserido e não destoante. Soou como uma busca por harmonia o mais plena possível. O corpo foi leve e fácil de beber, com carga média-baixa, capacidade de ser bebida várias sem enjoar, principalmente se aliar isso a baixa carga alcoólica, imperceptível. Sua carbonatação apareceu média a baixa, sem relevância. O final dela foi seco e de residual caramelizado. Retrogosto doce-amargo.  
Bierland Vienna - Vienna Lager - 5,4% ABV

E a última que eu tinha em casa dentre as premiadas brasileiras era a Weizen (melhor Bavarian Hefeweiss - Cerveja de Trigo da Baviera - das Américas), também da Bierland. É uma cerveja de trigo, cujo estilo a maioria das artesanais brasileiras mantém em seu portfólio, já que tem poder de angariar degustadores iniciados, por ser mais palatável e refrescante, ou seja, uma cerveja fácil de beber, mas ainda assim um passo além das cervejas de massa, as Pilsens de boteco.


A Bierland Weizen veio com uma coloração amarelo gema de ovo da roça, turbidez plena e boa presença de sedimentos, devido adição das leveduras depositadas no fundo da garrafa e que fecharam mais sua aparência e agregaram tons alaranjados ao líquido – porém ainda assim foi possível ver a vastidão de bolhas que subiam. A espuma teve uma formação média, sem grande destaque no topo, levemente cremosa, aerada, que caiu de forma média e deixou uma camada de um dedo. O aroma mostrou a boa base dos maltes no início, com agradável cheiro de caramelo, pão e um pouco de mel. Os ésteres frutados de banana e o tutti-frutti apareceram em harmonia com o conjunto e os fenóis de cravo foram aparentes, mas menos em destaque. Um leve salgado ao fundo, mas as notas aromáticas fiéis ao que se pede do estilo, mais suavizada e de pouca complexidade.  O paladar começou também bem agradável e moderado, com notas de muito pão, cereais e até um pouco de tostado. Cresciam no gole o caramelo e o mel. O resultado das leveduras ficou mais encoberto pela maltagem, mas os gostos de cravo e banana estavam lá. Certa acidez característica, além de notas salgadas que vieram entre goles. O corpo foi médio a baixo, leve na possibilidade dessa bebida ser bebida aos montes, mas um pouco cremoso como a maioria do estilo na questão das proteínas do trigo. A carbonatação foi alta e muito borbulhante na boca. O fim dela foi médio seco, um pouco longo, e imperativamente doce. Residual com um pouco de acidez.
Bierland Weizen - Hefeweiss - 4,6% ABV

Vale citar também outras premiadas brasileiras no WBA 2012, mas como não as tinha em estoque, ficam portanto para uma próxima degustação: Baden Baden Golden Ale (Melhor Fruit Beer das Américas) e Baden Baden Bock (Melhor Bock das Américas).

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