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domingo, 7 de outubro de 2012

WORLD BEER AWARDS – CERVEJAS DE TRIGO



Continuando com a degustação de algumas cervejas campeãs do World Beer Awards de 2012, dessa vez entrando na categoria das Cervejas de Trigo. Dentre as premiadas eu possuía apenas três cervejas armazenadas no meu estoque, todas elas bem distintas entre si, mas que juntas fazem um bom apanhado de escolas cervejeiras do mundo sendo inclusive originais dos próprios países, que são a Alemanha, Bélgica e Estados Unidos, respectivamente.

A Weihenstephaner Vitus (melhor Cerveja de Trigo do mundo, melhor Cerveja de Trigo "Forte" do mundo e das Américas) foi uma das últimas cervejas, data de 2007, criadas pela mais antiga cervejaria (e universidade cervejeira que atualmente possui o maior banco de dados de cepas de leveduras de todo o mundo) que se tem registro no mundo, a alemã Weihenstephan. A união de cerveja nova, mais estilo (Weizenbock) e cervejaria antigos resultou numa das cervejas mais premiadas do WBA desde que o concurso foi criado, inclusive uma vez já ganhadora como a melhor cerveja do mundo. Nesse ano ela abocanhou três prêmios se mantendo novamente como a cerveja hors concour do festival.

Vertida na sua própria taça bojuda e portentosa, feita para ser despejado todo o líquido da garrafa, mas também abstrair toda a gama de sensações advindas, a Weihenstephaner Vitus mostrou um líquido dourado e brilhante, quase de tom alaranjado, totalmente turvo depois de despejar o fermento do fundo da garrafa. Sua espuma alvíssima teve uma formação esplendorosa e criou um colarinho cremoso, rijo, que demorou um bom tempo para cair, quando caiu ficou com aspecto aerado e com camadas fofas sobre o líquido, além de sujar um pouco as laterais.  O aroma veio com a esterificação de banana em primeiro plano, evocando um intenso cheiro da fruta madura. Toques cítricos de laranja, mexericas, foram iniciais e fugazes. Em seguida foi a maltagem que deu as caras, contribuindo com um médio e vigoroso caramelo, aromas de trigo, grãos e panificação, o mel mais em segundo plano e finalização de doce-de-leite. Os ésteres ressurgiram nas frutas, dessa vez as secas e escuras, com agradáveis e leves cheiros de ameixas e mais intensos uva e banana passas. O tutti-frutti e o fenólico do cravo vieram mais amenos frente essa esterificação das frutada – ficaram mais forte conforme ela esquentou, além de atrair toques de frutas cristalizadas. O álcool foi bem inserido e imperceptível. Foi ainda possível perceber um leve caráter de vinho branco. O sabor dela correspondeu ao anunciado pelo aroma. Um início adocicado extraído do fermento assertivo que evocou gostos de banana madura, frutas cítricas e amarelas, frutas cristalizadas e de compota, que deram o tom junto com a também maltagem assertiva, que nesta contribuiu com um caramelo e doce-de-leite suculentos de lambuzarem a boca, toques mais amenos de mel e uma panificação e trigo entremeadas. O álcool dessa vez se mostrou presente, acalentador e picante, mas sem agredir.  Os tons fenólicos, condimentados, foram mais intensos, onde abstraiu cravo, noz moscada e pitada de canela. Leve gosto salgado na boca, além de azedo persistente. O corpo dela foi médio, meio cheio e um pouquinho pesado por causa das proteínas, mas ainda assim fácil de beber como todas as demais de trigo. A carbonatação veio alta, crocante, borbulhante tal qual um espumante. O final dela foi médio longo e doce dos maltes (caramelo, doce-de-leite). O retrogosto veio com uma intensa pegada de cravo. Excelente Weizenbock e que faz jus ao título contínuo. Embora eu seja mais afeito a outra do estilo, a também alemã Schneider Aventinus, pois prefiro uma pegada mais forte das frutas escuras e secas, essa o tem mais no aroma e menos intenso, mas seu equilíbrio e boa intensidade dos ésteres, fenóis e da maltagem, ficou muito equilibrada e atraente, e o melhor que ela ofereceu foi o suculento aroma e gosto de doce-de-leite de lambuzar a boca. 


Weihenstephaner Vitus - Weizenbock - 7,7% ABV

A belga Blanche de Namur (melhor Witbier da Europa), que já havia sido campeã em 2009, veio esse ano vencedora como a melhor europeia do clássico estilo belga de cervejas de trigo, Witbier. Embora seus pares do mesmo estilo sejam muito similares entre si, já que por se tratar de um estilo delicado e leve, não preze pela complexidade e variedade, nela o seu aroma é ligeiramente complexo e com a percepção um pouco maior de sensações, talvez daí tirando o seu destaque e motivo dela ter se sagrado novamente como campeã.

A Blanche de Namur apresentou cor esbranquiçada, com um clarinho tom amarelo que lembrou a cor do remédio Cepacol, muita quantidade de bolhas em subida e com claridade absoluta antes das leveduras interferirem causando turbidez e presença de sedimentos. A espuma, alvíssima, foi formosa e acintosa, com um colarinho inicialmente firme e compacto, mas aerado logo em seguida e fugaz na sustentação, que finalizou criando esparsas bolhas e terminou com uma fina película discreta. O aroma trouxe o esperado para o estilo, agradáveis cheiros de casca de laranja, toques cítricos de limão siciliano e dulçor de doce de casca de laranja da terra. Um toque herbal e picante de sementes de coentro – que persistiu numa sensação mentolada, além de muito dulçor de açúcar. Ainda toques esterificados de frutas amarelas como, por exemplo, nêsperas e acidez/salgado sutil de carambolas. Leve cheiro de figos cristalizados e muito cheiro de leveduras que também deram tons fenólicos que remeteram a cravo. Os maltes contribuíram com um pouco de grãos, uma panificação doce (o aroma lembrou sonho) e ainda um leve tom de mel de laranjeira. Embora de um estilo leve uma boa gama se desprendeu no aroma, causando leve complexidade. O sabor trouxe de início os dulçores de açúcar e o cítrico da casca de laranja. A mesma sensação de frutas amarelas e frutas em compota advindas no aroma. Certa acidez característica e tons salgados. Gosto acintoso das leveduras. Leve a médio amargor herbal, que lembrou o sumo branco da casca da laranja, mais provavelmente advindo, junto com a sensação mentolada e picante, das sementes de coentro e do fenólico de cravo. A maltagem foi baixa e atraiu gosto de pão doce, um pouco de mel e grãos. O corpo é muito leve, sutil, fácil de beber e agradável. A carbonatação é alta e com sensação frisante. Fim muito seco, de residual doce e cítrico. Retrogosto levemente herbal e cítrico de limão. Uma Wit clássica, que vai um pouco além no aroma.


Blanche de Namur - Witbier - 4,5% ABV

A Imperial White (melhor Cerveja de Trigo "Forte" das Américas) faz parte da linha de cervejas extremas da cervejaria americana Samuel Adams, onde o estilo Witbier, originalmente tão leve e refrescante, ficou mais encorpado devido uma maior quantidade dos maltes utilizados e consequentemente ficou muito alcoólica, além de ganhar até em complexidade, devido também utilização na receita de algumas frutas e grande variedade de temperos e condimentos.  Ela é inclusive recomendada para a guarda e dizem que é até aconselhável o fazer, ficando mais amaciada com o tempo que atenuaria todo esse álcool agressivo dela.

A Samuel Adams Imperial White, que faz parte do portfólio da série de cervejas extremas da SA, veio com um líquido de cor alaranjada (cobre), turva e com vasta presença de sedimentos, nuances amareladas contra a luz. Sua espuma levemente bronzeada veio com boa formação inicial, que teve uma mediana retenção, aspecto fofo e aerado, sujando muito os lados. Seu aroma trouxe notas inicialmente cítricas de laranja e grapefruit, bem inseridas e moderadas, envolvidas por notas salgadas e temperadas que remeteu ao queijo cheddar (lembrou Cheetos Tubo) e especiarias, como canela e pimenta, realçadas pelos toques picantes. Conforme volatizou, o álcool liberou aromas de frutas avermelhadas e os ésteres vieram com chiclete tutti-frutti. Além do aroma do álcool os tons florais também deram o tom. O sabor trouxe dulçor inicial de caramelo suculento e pão, seguido por muitas frutas vermelhas, bem vivas, de morangos e cerejas. As frutas contribuíram também com toques cítricos de laranja, abacaxi em compotas e também banana. Notas florais trouxeram um buquê elegante. O amargor veio mentolado e refrescando a boca como um flúor ou enxaguante oral, parecido com menta. Gosto de chicletes sabor tutti-frutti e também sabor menta. As especiarias, condimentos, vieram com toques picantes bem persistentes. Dulçor alto e ditatorial, não possuiu nenhum toque salgado aparente no aroma, que lembrou remédio doce, um xarope. Álcool agressivo e extremamente acalentador. Leve complexidade evidenciada conforme o líquido esquentou. O corpo dela foi licoroso, denso, grosso na boca como uma boa bebida destilada. A carbonatação foi leve, mas foi possível sentir algumas poucas borbulhas na língua. O final dela foi doce de calda caramelizada. Retrogosto alcoólico que esterilizou a boca.  Uma ótima cerveja, mas sem semelhanças com uma Witbier, apenas parecida no picante, do coentro da original, e de pimenta da extrema. 


Samuel Adams Imperial White - "Imperial" Witbier - 10,3% ABV

Nas próximas postagens continuarei degustando demais vencedoras do WBA12, e aproveitando a deixa final da postagem de hoje, outra cerveja da linha Imperial da Samuel Adams será degustada, assim como priorizarei outras americanas na próxima rodada. Até já!

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