Páginas

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

30 ANOS, 3 CERVEJAS - "A" BELGA




A cerveja belga Westvleteren 12 é desde muito tempo a cerveja fetiche de todo apreciador de cervejas especiais. Considerada por muitos especialistas como a melhor cerveja do mundo, a número 1 em vários ranques cervejeiros, prová-la é uma saga homérica, vide que só é vendida no seu próprio monastério trapista onde é fabricada, na abadia de Saint Sixtus. Lá também são produzidas pelos monges as demais cervejas da Wlestveteren, a 8 e a Blonde, podendo todas, inclusive a 12, serem degustadas no bar que fica ao lado da abadia, o In De Vrede.

Na ordem: Westvleteren 8, Westvleteren Blonde e Westvleteren 12


A condição prévia da compra é fazer uma reserva por telefone da aquisição de um engradado com 24 cervejas, quantidade máxima permitida por comprador, que deverá fornecer a placa do carro para ser vinculada ao número de telefone discado, para evitar que o mesmo adquira além do permitido. Se não for respeitado o prazo estabelecido de entrega (dia e hora) não adianta ir em outra ocasião que não a marcada, os monges não venderão as cervejas, nisso são muito criteriosos, restando apenas ligar e agendar novamente. Após dois meses de concretizada a compra o mesmo telefone e placa do carro poderão ser reutilizados para uma nova aquisição. O grande problema é que eles demoram muito a atender as ligações, meio que de má vontade mesmo. Muitos compradores relatam que só após muito insistir, com o redial apertado inúmeras vezes, quase desistindo, que se tem êxito, onde nem todo mundo possui essa paciência toda em perder muitos minutos (horas?) ao telefone, quando poderiam estar aproveitando mais a viagem. Outros preferem adquirir a cerveja da forma mais fácil: fora da abadia, no "mercado negro".

Apesar dos monges avisarem que sua venda fora da abadia é proibida, não é muito difícil achá-la em lojas ou sites especializados, dentro da Bélgica ou noutro país europeu, e claro que um pouco mais cara que se comprada diretamente da fonte. Muitos turistas acabam as comprando justamente com o intuito de revendê-las mundo afora. Aqui no Brasil ela também é rara, muito almejada e principalmente cara, para poucos. Não é mais necessário ir ao monastério para conquistar o Santo Graal das cervejas, mas para pagar o que costumam cobrar por ela, até 200 reais pode ter que ser desembolsado por apenas uma garrafinha.

A verdadeira número 1?

Hoje em dia sua aquisição ficou facilitada com a cervejaria investindo em pontos de venda e expansão para outros mercados. No ano passado, num fato inédito, pela primeira vez a "Westie" 12, como é carinhosamente apelidada, foi vendida fora da abadia e com total aval dos monges. Graças a uma ação de venda de kits da edição especial Westvleteren XII, contendo 6 garrafas e 2 taças, em uma rede de supermercados Colruyt, o dinheiro arrecadado foi destinado a realização de obras de benfeitoria na abadia. Tão logo foram postos à venda, filas foram criadas e os kits acabaram rapidamente. E claro que muitos compraram com o intuito de revendê-los depois por um preço muito acima do cobrado. Recentemente fizeram a mesma campanha nos Estados Unidos, com a venda dos mesmos kits da WXII. Apesar dos americanos terem uma produção cervejeira muito rica, com uma imensidão de cervejarias muito apreciada mundo afora e com muitas cervejas também atingindo o patamar de raridade, até eles almejam essa belga icônica e até lá a Westvleteren XII esgotou rapidamente.



Toda essa dificuldade que muitos têm em consegui-la e ela ser a cerveja fetiche de todo apreciador de cervejas, a fizeram ser uma das minhas escolhidas para celebrar meus 30 anos de idade:

Consumida em comemoração ao meu aniversário de 30 anos, 07/01/13, a garrafinha da WXII, edição comemorativa vendida em edição especial nos supermercados, trouxe uma cor castanha e média limpidez, com leve clareza em se enxergar do outro lado, além de nuances rubis contra a luminosidade, porém com aspecto também um pouco turvo devido presença dos sedimentos que boiaram no líquido. Sua espuma levemente bege, bronzeada, teve uma formação tranquila, criada sem dificuldades e com vastidão. Sua retenção foi mediana e desceu com calma, sem urgência, para o creme fofo assentar numa camada fixa com boa espessura, acintosa, não sem antes deixar pinceladas de desenhos nas paredes da taça. Seu aroma trouxe muitas notas esterificadas de frutas, além de condimentado de especiarias, contemplando o trabalho maciço das leveduras nessa tão famosa obra de arte. Os maltes também estão presentes de forma segura, funcionando como base, suporte, e destaque também em primeiro plano. De início o frutado de figos secos assomou o nariz junto com demais frutas secas e escuras como ameixas e passas. Essa pegada se manteve com as frutas vermelhas e silvestres, com evocação de cerejas, amoras e toques de framboesas. O fermento trabalhou mais um pouco e trouxe notas de maças e o fenólico picante de cravo. O doce de leite e a bala toffee vêm trazendo notas suculentas e causando, mesmo antes da cerveja ter sido bebida, salivação e ânsia por goles. Notas de xarope e coco queimado complementaram as notas maltadas do conjunto. Complexidade de baunilha e madeira deram uma contribuição, embora sutil, grandiosa ao todo. Um buquê perfumado, floral e alcoólico, surgiu numa mistura delicada e ostensiva, mas não agressiva, ornando o conjunto sofisticado. Notas de açúcar e alcaçuz complementam o aroma adocicado, porém longe de enjoativo. Após esquentar, aromas de avelãs e nozes foram se desprendendo com maior clareza. O sabor começou com seu adocicado licoroso nas suas nuances alcoólicas e aveludadas que aqueceram e saciaram a vontade. Notas de bombons com cerejas com presença muito perceptível de um bom chocolate belga mais a fruta e sua calda de licor jorrando após uma mordida. O álcool funcionou trazendo notas amargas, algum mentolado, ervas, e também soou como se um bom destilado (conhaque?) tivesse sido sorvido. As notas de chocolate, cacau, se manteram do meio do gole em diante, e encontraram par nos dulçores de bala toffee, caramelo e pão de mel. Em certo momento, com a aparição das frutas escuras, mais sua secura, adstringência, sensação vinosaa, sugeriu um vinho do Porto. O corpo dela, como já dito, foi cheio e licoroso, aveludado e pomposo. Carbonatação média, mais para quase baixa. O final dela foi seco e mentolado do álcool. O retrogosto dela retornou com o calor subindo pela garganta como se despejasse um hálito de flúor, menta, verde, além da gama de frutas. Além das notas complexas que dela se desprenderam, achei sensacional a harmonia que nela imperou. Apesar de, após beber tantas cervejas diferentes, ela não se destacar por trazer algo novo nunca dantes sentido em algum outro par, o que dela melhor se pode extrair foi isso: vasta riqueza equilibrada.

Westvleteren XII - Belgian Quadrupel/ABT -  10,2% ABV

Ad aedificandam abbatiam adiuvi. Eu ajudei a construir a abadia.

Nas próximas postagens apresentarei as demais degustadas em homenagem aos meus 30 anos de idade, a brasileira Biertruppe Vintage nº 1 e a americana Goose Island Bourbon County Brand Stout. Aguardem que vem mais coisa boa por aí!



Nenhum comentário:

Postar um comentário