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quarta-feira, 12 de junho de 2013

AS MUDANÇAS DO AMOR

Ontem recebi de uma agência de comunicação um e-mail de divulgação da Cerveja Do Amor, da Bodebrown. O e-mail apresentava a cerveja como uma boa dica de presente para o Dia dos Namorados, comemorado hoje, 12/06. Eu já a conhecia desde meados de 2011, quando a provei pela primeira vez, e é mesmo uma bela escolha para comemorar a data. Essa Fruit Beer que recebeu amoras maceradas e que também tem o malte de trigo como base, é uma cerveja delicada, refrescante e com boa personalidade. O frutado é o carro chefe (frutas vermelhas, jabuticaba e banana) seguido de perto por notas condimentadas, ácidas e salgadas, além de boa secura. Por ser uma cerveja sazonal, ela é lançada apenas no Dia dos Namorados e Natal.

O rótulo da cerveja traz estampado o quadro Pyrame et Thisbé, do pintor francês Pierre-Claude Gautherot. A obra foi inspirada no conto que integra o livro de mitologia Metamorfoses, do poeta romano Ovídio. Este narra o amor proibido entre os jovens babilônios Píramo e Tisbe, cujo sangue de seu suicídio coletivo teria comovido os deuses a transformarem e tornarem vermelha a amora-branca. Vale lembrar que essa obra também inspirou o clássico de Shakespeare, Romeu e Julieta.

Outra fonte de inspiração na criação da cerveja teria vindo do próprio cervejeiro da Bodebrown, Samuel Cavalcante. Após reclamações de sua namorada dizendo que ele passava mais tempo na cervejaria que com ela, ele decidiu homenageá-la a presenteando com essa criação.


Pyrame et Thisbé, Pierre-Claude Gautherot - Fonte: http://necspenecmetu.tumblr.com 


Retornando ao e-mail que recebi ontem: o que me chamou atenção na divulgação foram duas coisas citadas, o teor alcoólico e o estilo da cerveja. A que bebi anos atrás tinha baixo teor alcoólico (5% ABV) e seu estilo era uma Fruit Beer, mas que também poderia ser chamada de Cerveja de Trigo com fruta. Mas lendo o release, e depois o próprio site da cervejaria, vi que agora ela possui 8% ABV e que virou uma Belgian Tripel. Pesquisando um pouco mais descobri o motivo: ela sofreu alteração na sua receita, a fim de aguentar a viagem até o Canadá para o concurso do Mondial de La Bière do ano passado. Essa informação veio de uma postagem do blog Gastrobirra, que também apresenta uma bela harmonização da Cerveja Do Amor com polvo crocante e batata doce confit.

A edição 2013 foi produzida em maio e já se encontra disponível para venda. Eu mesmo nem lembrava que tinha essa cerveja aqui em casa, mas a produzida no ano passado. São tantos rótulos que compro que às vezes me perco com o que tenho. Observei que além da rotulagem comum das cervejas da Bodebrown essa garrafa tinha uma pequena etiqueta branca informando os ingredientes nos idiomas francês e inglês, ou seja, mais uma prova que foi feita especialmente para o festival canadense. Mas vamos à ela: 

Aparência âmbar e rosada (rubi). Fechada e com bolhas em subida. Espuma com criação baixa, cor branca levemente rosada e baixa retenção, efêmera. Não sujou as paredes da taça e ficou uma película fina. Aroma com início de notas acéticas e frutadas. Sensação azeda e salgada amparadas pela sugestionada fruta vermelha. Adstringência residual e leve condimentado. Maltes com boa base, notas de doce de caramelo e biscoito. Buquê de pétalas de flores. Paladar iniciou com pegada lática seguido de sensação acre. Acidez e frutado da amora mais evidentes que o sugestionado no aroma. Maltes quase limpos, mas extraindo pão branco, biscoito e belo dulçor de mel. Éster de banana, baixo e também leve fenólico das especiarias. Adstringência e certa acidez das cascas dos grãos. Álcool imperceptível. Corpo leve e delicado. Carbonatação alta com textura de espumante. Fim bastante seco mais o retrogosto ácido resultaram num repuxar da boca.

Bodebrown Cerveja Do Amor - Fruit Beer - 8% ABV


Encontrei semelhanças com a versão menos alcoólica, mas a atual está com maior presença de malte de cevada e menos éster/fenol que na anterior. Sobre o estilo esta deveria continuar sendo enquadrada apenas como uma Fruit Beer, pois de Tripel faltou maior complexidade e corpo, por exemplo. E o teor alcoólico, mesmo maior,continua imperceptível. 

Fazendo um rápido paralelo, a Cerveja Do Amor mudou o seu perfil por exigência de um bem maior (o concurso), mas a sua essência continuou idêntica, inviolável, pois é praticamente a mesma cerveja. Igual a todos nós nos relacionamentos com nossos pares. Sempre somos reticentes a mudanças, parece que o outro é mesquinho ou quer impor sua vontade. Não é isso. O casal serve para um identificar no outro aquela mudança necessária, mas que por teimosia ou preguiça nunca ocorre. Por exemplo: o que seria do gosto sem o cheiro? Um paladar perdido entre sensações sem o aroma para lhe dar a mão e a devida orientação do sabor final. Mudemos, mas continuemos os mesmos. Deixem (D)o Amor entrar em suas vidas. Feliz Dia Dos Namorados!

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