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terça-feira, 13 de agosto de 2013

ENQUANTO NÃO VEM A “BIRITIS”... “CACILDIS!”

O assunto cervejeiro mais comentado na semana passada foi o lançamento da cerveja Biritis. A homenagem feita ao Mussum, um dos personagens brasileiros mais icônicos de todos os tempos, foi noticiada não apenas dentro do meio cervejeiro, mas repercutiu principalmente por todas as grandes mídias brasileiras.

A ideia partiu de um dos quatro filhos do comediante, Sandro Gomes, que com mais dois sócios criou a cervejaria artesanal carioca Brassaria Ampolis. A Biritis é o primeiro lançamento da marca. Do estilo Vienna Lager, ela tem 4,8% de teor alcoólico e sua receita recebeu consultoria do André Leme Cancegliero, um dos fundadores da Cervejaria Urbana – artesanal de São Paulo famosa pelos seus rótulos criativos.

O lançamento está previsto para o dia 19 de agosto na loja da quadra da escola de samba Mangueira – além de adorador do “mé”, Mussum também era mangueirense doente. Os pontos de venda serão inicialmente Rio e São Paulo, mas ainda sem locais definidos.



Enquanto a Biritis não vem, resolvi brindar a notícia abrindo uma cerveja que também foi batizada com um popular jargão do Mussum: Cacildis! Elaborada pelo casal de cervejeiros Nunes & Levy, ela foi assim batizada também em homenagem ao humorista brasileiro. Mas diferente da Biritis ela não tem fins comerciais. Foi produzida nas panelas dos cervejeiros caseiros para concorrer ao VII Concurso Nacional das ACervAs, realizado ano passado em Piracicaba/SP. Além dela eles também concorreram com outra homenagem ao Mussum, a Forébis, cerveja do estilo American IPA com 7% de teor alcoólico. Nenhuma das duas ficou entre as finalistas, mas nem por isso os cervejeiros saíram do concurso de mãos abanando, muito pelo contrário. Outra criação deles, a cerveja Casa Nova, recebeu duas premiações: primeiro lugar no estilo Doppelbock e prêmio Best of Show, como a melhor dentre as cinco campeãs de cada estilo.

Cacildis! é uma cerveja do estilo Russian Imperial Stout com 8% de teor alcoólico. Na receita foi usado bastante malte Pale Ale, muito torrado e especial. O lúpulo foi apenas de amargor e em uma parte dela foram usados chips de carvalho tostados embebidos em vodca. A garrafa que eu tinha datava de 18/01/2012, portanto degustada um ano e sete meses depois de engarrafada, eis o resultado:

Nunes & Levy Cacildis! - Russian Imperial Stout - 8,8% ABV
Aparência negra como a noite e totalmente opaca. 
Espuma cor marrom-escura.
Baixíssima formação/retenção e mediana criação de bolhas (1º serviço).
Média formação, boa retenção e boa criação de bolhas – doce de pavê (2º serviço).
Lágrimas escorreram lentamente nas laterais e grudaram sujeira. 
Aroma iniciou com alto torrado e alto dulçor, ambos equilibrando um ao outro. Trufas de chocolate amargo com pedaços de ameixas e uvas passas. Álcool muito bem inserido e aquietado, mas quando volatizou sobressaiu e junto com os aromas de madeira e coco queimado, pareceu um verdadeiro Bourbon. Aí a cerveja perdeu um pouco do doce de chocolate e ésteres e passou a extrair muito amadeirado e até notas salgadas – molho inglês? O chocolate diminuiu um pouco, mas o torrado cresceu evocando cinzas e tabaco. Aí o dulçor reapareceu como um achocolatado com baunilha e o álcool amaciou novamente. Aroma rico e complexo.  
Sabor começou com um forte éster frutado das ameixas, figos e passas. E também fenol de anis. O torrado surgiu tão logo, porém o frutado ainda sobressaiu mais. Chocolate bem denso. Álcool presente, mas controlado pelas demais sensações não ficou agressivo. Após a boca acostumar, foi possível perceber sobressaindo levemente a madeira, o coco, a baunilha... A ameixa-seca retornou, porém somente ela. Do meio do gole a sensação foi ficando mais esfumaçada. Final com gosto de vinho do Porto. Mas antes de terminar o chocolate amargo retornou. 
Corpo denso e licoroso. Carbonatação média. Álcool acalentador. 
Final seco e levemente alcoólico. Retrogosto torrado e satisfatório, nada pesado.

Excelente representante do estilo com complexidade aromática e rica. Sabor menos destacado, porém muito atraente também que priorizou os ésteres e menos a torra. Típica cerveja “forte” que consegue mascarar sua robustez. Perigosa.

Ainda sobre a Biritis eu acredito que ela terá como público alvo tanto o bebedor ocasional de cervejas especiais (o mesmo que bebe Duff porque é a cerveja do Homer Simpson) quanto o apreciador beer geek sempre a procura de novas e boas cervejas. Como recebeu ajuda de um dos grandes cervejeiros do Brasil, a certeza é que coisa boa virá por aí. O negócio é aguardar. Ou como diria Mussum: ter “calmis”.


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