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terça-feira, 3 de setembro de 2013

ROTEIRO CERVEJEIRO EM MONTEVIDÉU, POR GUSTAVO RENHA

Essa postagem foi escrita pelo sommelier de cervejas Gustavo Renha, sobre sua visita a Montevidéu, Uruguai:

Fala galera!

Aproveitei as férias de julho para viajar e também conhecer novas culturas cervejeiras. Peguei uma promoção de milhas e fui para o Uruguai, mais precisamente Montevidéu, capital. Pesquisei na internet antes de ir e não achei muita coisa diferente de Patricia, Zillertal e Nortenã, mas tinha certeza que se procurasse com carinho ia achar cervejas mais maltadas e lupuladas. E por sorte divina eu estava certo.

Tive a oportunidade de conhecer os rótulos da Cervejaria Davok quando fiz um trabalho na Argentina em maio desse ano. Desde então quis conhecer sua fábrica, mas quando planejei a viagem imaginei que ela seria a única no meio artesanal local. Estava parcialmente certo, mas consegui achar umas coisas diferentes que vou dividir com vocês agora.

Chopeira da Cervejaria Davok - Foto: Gustavo Renha


Logo quando cheguei reservei a noite para conhecer o pub cervejeiro que era o mais badalado pelos blogs e sites do meio, o famoso THE SHANNON IRISH PUB. Assim que entrei logo me senti em um pedacinho da Inglaterra. Madeira, pints, torneiras, um atendimento mais “formal”. O SHANNON tem dois andares, televisão que passa jogos e telejornais, e em alguns dias da semana tem shows de música. No dia que fui ia ter um DJ mais tarde no primeiro andar, porém não fiquei pra ver, portanto não sei se é bom ou ruim. Mas enfim, sentei no andar de cima e logo pedi a carta de cervejas. Artesanal local só tinham Davok e Mastra (e em quase todos os outros estabelecimentos que eu vou falar, também) e uma pequena seleção de importadas. Guinness, Löwenbräu, Corona, Negra Modelo e algumas outras, faziam parte da seleção. Comecei com a clássica Löwenbräu para relembrar do meu batismo cervejeiro, porque foi uma das primeiras cervejas que conheci quando descobri esse nosso mundo (que no Brasil infelizmente não encontramos mais). O bar estava lotado de brasileiros, pois naquele dia teve a final da Libertadores, com o Atlético Mineiro campeão, e como tal, todos felizes bebendo suas cervejas gelaaaaaadas. Pedi minha Davok IPA para matar as saudades, mas não dei sorte. Talvez por algum problema de higienização nas torneiras ou má conservação do chopp, sei lá, estava bem diferente do que eu esperava. Uma pena, mas ao mesmo tempo aumentou minha vontade de procura-la em outro lugar. Pedi o famoso chivito para comer, que é um sanduíche com bacon, batata frita e mais um monte de coisas, uma especialidade local, e aquilo era bom demais! Talvez comer esse treco todos os dias seja a explicação dos 4 kg que ganhei... Enfim, o bar é maneiro, preço justo, com certeza vale a visita, porém eu esperava mais.

Foto: Hoverfish (Wikimedia Commons)


No dia seguinte fui almoçar na famosa PARRILLA DEL SOLÍS, que fica exatamente ao lado do SHANNON, bem pertinho do Teatro Solís. Que carne! Comida sensacional, uma das melhores carnes que comi lá, atendimento excelente, um restaurante alto nível com um preço honesto, não é barato, mas também não é caro. Eis que para a minha surpresa perguntei se tinha cervejas artesanais lá e a garçonete me disse que local só tinham Zillertal e cia., mas que tinham algumas importadas. Na verdade uma cartinha com uns doze rótulos importados e entre eles a belga Duvel, que pedi na mesma hora que vi. Pode não ser nada demais isso, mas para mim cerveja tem tudo a ver com momento e naquela hora, no Uruguai, comer uma carne extramente maravilhosa com uma Duvel, foi inesquecível! Recomendo muito, mas não deixem de provar também as entradinhas (presunto de Parma a preço de banana!).

Foto: espiandopelomundo.blogspot.com.br 


No sábado, como eu já tinha combinado antes através de mails, fui conhecer a fábrica da CERVEJARIA DAVOK. Naquele dia estava rolando um curso de produção caseira e me convidaram para participar. Fica bem no Centro, bem fácil de chegar e não tem letreiro nem nada parecido. Uma casa relativamente grande que virou uma cervejaria. Fui recebido pelo amigo Alejandro, proprietário e cervejeiro da fábrica, que me recebeu com toda atenção possível. Mostrou a cervejaria, contou orgulhoso as histórias de como ela nasceu e bebemos diversas cervejas dele juntos, nos intervalos do curso de produção. Tive o prazer de degustar uma Barleywine que estava maturando lá há dois anos (putz, que cerveja!). O tempo inteiro ele mostrava felicidade em falar da cultura cervejeira brasileira, onde fez questão de falar o quanto admira o trabalho de cervejeiros como o Samuel, da Bodebrown, e o sommelier Paulo Feijão, da Dama Bier. Sinal que temos gostos parecidos, pois também tenho muito apreço por esses profissionais. Logo depois provei a American IPA dele, que eu já conhecia, mas estava curioso para provar ali na hora, fresquinha, diretamente da “teta da vaca”. Não devia ter feito isso, pois eu parecia uma criança na Disney! Que cerveja, lúpulo explodindo, equilíbrio perfeito. Se pudesse traria uns quatro growlers para o Brasil! No meu gosto pessoal foi a melhor cerveja que bebi na viagem. Também pude provar sua nova receita, uma Imperial IPA, porém ainda está em testes e vai passar por ajustes. No final tive o prazer de contar para a turma de alunos do curso um pouco do que está acontecendo no Brasil, sobre a nossa cultura cervejeira e todos ficaram surpresos e animados a vir conhecer. Infelizmente por motivos operacionais e tributários, nem tão cedo a DAVOK virá ao Brasil, mas ele disse que se dependesse da vontade dele com certeza viria. Se você for ao Uruguai tem que ir lá! Fácil acesso, só mandar um mail e ver se tem espaço na agenda da fábrica, recomendo muito. Pedi dicas de bares e ele me indicou dois que são os seguintes na minha jornada.

Fermentadores da Cervejaria Davok - Foto: Gustavo Renha


No outro dia fui ao BURLESQUE. Fica um pouquinho mais longe, na região de Pocitos, mas nada que 25 minutos de ônibus a 20 pesos uruguaios (+- 2 reais), resolva. Imaginei logo que o Alejandro tinha me recomendado o bar porque tinha as cervejas dele na torneira, nada mais do que a velha prática da amizade. Para a minha sorte, me enganei, entrei no bar e fiquei bobo. Grande a beça, todo no estilo pub inglês, com a maior variedade de cervejas especiais da cidade, uma grande gama de destilados, decoração muito maneira, atendimento perfeito, enfim, tudo que eu queria encontrar. Cervejas belgas, irlandesas, inglesas, alemãs, locais, a geladeira tava bombando. Pedi uma Davok IPA para começar e logo depois caí para as inglesas. Bebi uma Fullers Golden Pride acompanhada de um chivito da casa, e depois uma Fullers London Porter, foi perfeito. Foi o meu bar favorito lá, recomendo demais, e só não voltei todos os dias porque vinha embora no dia seguinte.

Foto: burlesque.com.uy


Fui a pé, feliz da vida, a alguns quarteirões dali conhecer o também recomendado GALLAGHERS. Cheguei lá e estava lotado, não dava pra andar, lembrou muito os pubs de NY que tive o prazer de conhecer no início do ano. Percebi que ali tinha um clima diferente, era uma espécie de bar “zona sul”, onde mulheres bonitas e os caras mais ricos da cidade iam fazer sua “pré-night”. Mas o legal era a diversidade, porque olhava em umas mesas do canto e tinham casais de idosos jantando e bebendo cervejinhas. Não fiquei muito tempo, pois não estava no clima de ficar em pé, apertado e tal, depois de ter vindo de um bar tão maneiro como o BURLESQUE. Mas o GALLAGHERS é supermaneiro, bem decorado com jogos de dardo e outras coisas típicas de pubs, tem uma excelente variedade de cervejas locais, inglesas, alemãs e encontrei algumas belgas também. Bebi uma Paulaner e fui embora. Recomendo muito, mas chegue cedo para não ficar em pé como eu.

Foto: gallaghersmvd.com


No último dia, antes de vir embora, perguntei para a galera local e me recomendaram conhecer o MERCADO AGRÍCOLA (MAM). Não tinha nada para fazer, então fui lá ver. Trata-se de um mercadão popular, recém-reformado, com vários boxes de diversas coisas diferentes. Restaurantes, lanchonetes, mercadinhos, açougue, casas de câmbio, lojas de suvenir, tem de tudo lá dentro, maneiro demais! Almocei em uma Parrilla lá e quando olhei pra frente tinha um boxe da CHOPERIA MASTRA. Fui lá provar alguma coisa, embora já tivesse degustado no Brasil em 2011 e não tivesse gostado muito. Obviamente que lá é muito mais fresquinha, estava realmente bem diferente do que eu havia conhecido anos atrás e foi ótimo para tirar o preconceito que tinha dela. Bebi só uma, a Pilsen, (aliás, bem honesta) porque já estava na hora de partir. O boxe é bem diferente, diversas torneiras, uma pequena variedade de cervejas da fábrica, um bom atendimento e um preço bem barato. Realmente uma excelente saideira, vale a visita ao mercado todo e à CHOPERIA MASTRA.

Boxe da Choperia Mastra no MAM - Foto: Gustavo Renha


E para finalizar não tem como falar do Uruguai e não falar das suas carnes e lindas cidades. Não deixem de conhecer as churrascarias dentro do Mercado Del Puerto, de visitar a Colonia Del Sacramento, que tem um brewpub que não consegui ir e de visitar Punta Del Leste. Todas as duas cidades você pode visitar em excursões de um dia, que existem em diversas agências de turismo de Montevidéu.

Espero que gostem e bebam uma por mim!

Gustavo Renha
Sommelier de cervejas
gustavorenha@gmail.com – (21) 7813-4900

Endereços:
CERVEJARIA DAVOK – Aquiles Lanza, 1131.
BURLESQUE – Luis A. de Herrera, 1136, Pocitos.
THE SHANNON IRISH PUB – Bartolomé Mitre, 1318, Ciudad Vieja.
GALLAGHERS – Pagola 3233, esq. 26 de março, Pocitos.
PARRILLA DEL SOLIS - Bartolomé Mitre, 1306, Ciudad Vieja.
CHOPERIA MASTRA (MERCADO AGRÍCOLA) – Joseph L. Terra, 2200.

7 comentários:

  1. Gostei do texto. Tenho alguns amigos uruguaios aqui em Florianópolis, um deles inclusive chegou hoje ao Uruguai, eles tem um formação política bem interessante, gosto desse povo. A Mastra eu também bebi, duas delas, fiquei com a impressão e cerveja de microcervejaria produzida com algumas limitações comerciais de mercado, portanto um tanto simples. Porém me passava que frescas devem ser bem interessantes, gosto de cervejas simples que cumprem seu papel, não creio que toda cerveja tenha que ser excepcional. Minha vontade de conhecer o Uruguai aumentou ainda mais depois do artigo.

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    1. obrigado pelo feedback, Fernando.
      eu também fiquei com vontade de conhecer Montevidéu depois de ler o texto do Gustavo.
      e parabéns pelo seu trabalho junto a Oficina e Ofício.
      abração.

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  2. gustavo, vc lembra o nome do brewpub de colonia do sacramento? aquele q vc diz no final da materia e q nao conseguiu ir? vou pro uruguai e argentina e gostaria de conhecer

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    1. Não lembro Richard, mas é bem fácil de achar, ele é bem famoso, fica na praça principal, onde tem os restaurantes! Um abraço, e boa viagem!

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    2. Barbot é uma cervejaria mesmo. Não sei se é esse "pub" que vcs estão falando. Passei duas noites em Colonia em Abril, e estava fechado nas duas noites...o mais estranho é que ninguém sabia dizer o porque...fica para uma próxima!

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  3. Olá Gustavo,
    Sou Mestre Cervejeiro e estou pensando em montar um brewpub ou uma microcervejaria em Montevidéu. Onde posso encontrar informações legais que possam me auxiliar?
    Agradeço a sua atenção
    Julio

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