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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

GREEN FLASH BREWING CO. — Parte I

O que seria da famosa pizza Margherita sem as perfumadas folhas frescas de manjericão? Quer coisa melhor que um pãozinho fresco, recém-saído do forno, no café da manhã?

E o que seriam das cervejas do estilo India Pale Ale, as IPA’s não fossem os lúpulos, seus perfumes, seus temperos, seu frescor? Quem já teve a oportunidade de beber uma IPA no pub de uma fábrica sabe bem a diferença que este “frescor” confere ao aroma e ao paladar.

Ciente desta prerrogativa degustatória e lupulomaníaca como a imensa maioria dos apaixonados adeptos das cervejas especiais, a importadora Buena Beer trouxe um pedaço — dos mais aromáticos e saborosos — de San Diego, na Califórnia, para o Brasil. Via avião, encurtando a distância e o espaço de tempo que separam a fábrica do consumidor final, e, portanto, garantindo o máximo de frescor dos lúpulos norteamericanos, ela importou a linha de cervejas de caráter mais lupulado da californiana Green Flash Brewing Co., uma das cervejarias mais celebradas no cenário atual pela qualidade de suas criações.

A Perua da Cerveja, por meio deste escriba e sommelier, esteve presente ao festivo portão de desembarque da Buena Beer no templo cervejeiro do Delirium Café, em Ipanema, no Rio de Janeiro, e conta agora como foi essa “amarga” — mas docílima em prazer — experiência sensorial através dos 5 rótulos aqui disponíveis, 2 deles inéditos no Brasil, pela importadora.



Cerveja, antes de tudo, é história. Sempre. E degustar uma cerveja é também apreciar os sabores que reservam a sua história. A “30th Street”, que serve de nome a esta American Pale Ale de altíssimo drinkability, é a principal estrada a interligar o Norte e o Sul de San Diego no lado Leste do Balboa Park — que nada tem a ver com Rocky Balboa, o fictício boxeador da Filadélfia eternizado nas telas por Sylvester Stallone. O Balboa em questão foi o conquistador espanhol Vasco Núñez de Balboa, que, ao atravessar o istmo do Panamá, em 1513, tornou-se o primeiro europeu a liderar uma expedição que atingira o Pacífico a partir do “Novo Mundo”.

Um dos mais antigos dos Estados Unidos dedicado ao uso recreativo público, o Balboa Park, com uma área de quase 5km2, abriga zonas de vegetação natural, jardins, trilhas, museus, teatros e o famoso Zoológico de San Diego. Ao longo dos últimos anos, à medida que mais e mais cervejarias foram abertas em San Diego (grandes, micros, nanos e brewpubs), a “30th Street” tornou-se conhecida por sua efervescente e dinâmica cena cervejeira artesanal. É em homenagem a esse “corredor” da craft beer culture que a Green Flash Brewing batizou esta cerveja de 30th Street Pale Ale, então lançada em 2008 para comemorar o 6º aniversário da cervejaria. Mas o que esperar dessa cerveja?



30th Street Pale Ale
- 6,0% ABV (Álcool)
- 45 IBU’s
- Lúpulos Warrior, Cascade e El Dorado
Uma espuma clara, de boa formação e persistência, encima um líquido alaranjado, de um dourado caminhando em direção ao cobre. Como era de se esperar numa cerveja de lúpulos norteamericanos, o cítrico predomina no aroma, com notas marcantes de laranja da terra e um maracujá inebriante, sensual. Nessa levada, instantes de pitanga, talvez acerola, também comparecem. Um perfume de tangerina se insinua, leve, com agradáveis notas de melão que perduram no olfato. Um jardineiro imaginário passa a foice, deixando sobressair o aroma de grama cortada; seguindo esta nota herbal, sucedem-se, pelos lúpulos, laivos de boldo, carqueja. Como já fora dito inicialmente, esta American Pale Ale (ou uma India Pale Ale em qualquer outra rua que não a “30th Street”, segundo definição da própria Green Flash) tem um alto drinkability — derivado de seu corpo leve, seu quê de frescor, tanto dos lúpulos quanto tributário de seu caráter cítrico, e o fim seco, com um salgado persistente, que, mais do que convidar, incitam a um novo gole, e outro, e outro, e outro. Algo de picante, condimentado, pinica o final do paladar. Após algum tempo, elevada um pouco a temperatura da cerveja, revelam-se notas de pimentão na boca. O álcool não se faz notado. O amargor, pelo contrário, é marcante, mas não gritante. Uma cerveja, enfim, saborosa que faz justiça ao boulevard cervejeiro que carrega em seu nome: “30th Street”.




Citra; Session; e India Pale Ale. Em outras palavras: Citricidade pungente; baixo teor alcoólico aliado a leveza e drinkability; e o amargor típico (e esperado) do estilo que facilmente pode ser considerado o estandarte do movimento craft beer — eis uma rápida definição da Citra Session India Pale Ale, cerveja inédita no Brasil, que integra desde 2013 a Hop Odyssey, a “Odisseia Lupulada” anual, de edição limitada, produzida pela Green Flash Brewing. Antes da degustação, que tal dar alguns goles sobre o conceito da cerveja já enunciado no rótulo?

Citra, na verdade, é uma marca registrada (trademark) lançada pela Hop Breeding Company em 2007 para um lúpulo híbrido, fruto do cruzamento de outras plantas, apelidado de “X-114”, produzido pela primeira vez em 1990. De aroma marcante, ele carrega diversos tipos de lúpulo em sua complexa linhagem, dentre os quais o alemão Hallertau Mittelfrüh, o varietal norteamericano do Tettnanger e o britânico East Kent Golding. O lúpulo Citra virou quase que sinônimo da (nova) escola cervejeira americana, afinal, reúne o amargor e o toque cítrico tão característicos às suas cervejas. Considerado um curinga, ele consegue ser eficaz tanto em proporcionar amargor, visto sua alta concentração de alfa-ácidos, quanto em conferir aromas, frutados (melão, manga) e cítricos (grapefruit, lima, maracujá, lichia, physalis), em especial e amiúde, daí o seu nome de batismo: Citra.

Falemos agora sobre as Session Beers... Grosso modo, esta categoria de cervejas é a suavização de algum estilo visando um elevado drinkability — “bebabilidade” para beber em grandes quantidades. E, neste sentido, apresenta teor alcoólico mais baixo do que o preconizado pelo estilo de origem da cerveja (em geral, não excedendo os 5% ABV). A modinha session começou por aqui em 2014 — e, diga-se en passant, para ficar, haja vista nossa tropicalidade sedenta por refrescância —, mas o termo inglês (traduzindo: sessão, período de tempo) remonta à Inglaterra, durante a Primeira Guerra Mundial, decorrida entre 1914 e 1918. À época, eram cervejas deste tipo, menos alcoólicas, como as do estilo Mild Ale, que os trabalhadores ingleses consumiam no intervalo (ou session) do trabalho para evitar que retornassem embriagados ao serviço.

Quanto ao estilo India Pale Ale, disseminou-se a lenda cervejeira — muito por sua verossimilhança e plausibilidade — de que foi criado por ocasião da colonização britânica na Índia, a fim de atender a demanda das tropas e colonos ingleses por cervejas da terra natal, que, ao fim e ao cabo, serviriam não apenas para matar as saudades daquele paladar, mas também para enfrentar o forte calor indiano e a escassez de água potável. As cervejas Pale Ale, entretanto, não aguentavam o longo curso das viagens de navio que partiam da Inglaterra rumo ao Oriente e chegavam estragadas à Índia. Contudo, tal problema foi resolvido com dosagens extras de lúpulo e incremento do álcool, ambos elementos notoriamente conservantes da bebida e que, portanto, conferiam-lhe maior durabilidade.

Eis uma versão romântica, mas controversa, uma vez que, ao lado das Pale Ale, as cervejas do estilo Porter eram as mais populares no território inglês no século XVIII e, convenhamos, mais resistentes à viagem transoceânica que as IPA’s em questão. Além disso, não havia a necessidade explícita de se inventar um novo estilo para suportar o transporte marítimo, visto que as cervejas inglesas já atendiam aos colonos, marinheiros, soldados e oficiais na Índia desde as primeiras décadas dos anos 1700. Armazenadas em barris onde poderiam durar um ano ou mais, elas eram exportadas para lá mais de um século antes do surgimento da IPA, cujo termo primevo “East India Pale Ale” fora utilizado pela primeira vez na Inglaterra, em 1835, num anúncio publicado no jornal The Liverpool Mercury — e, pasmem!, na Austrália, em 1829, numa propaganda do periódico Sydney Gazette and New South Wales Advertiser.

Anúncio da Hodgson and Co. para sua “East India Pale Ale”,
em 30 de Janeiro de 1835, no The Liverpool Mercury


Em propaganda no jornal australiano Sydney Gazette,
de 29 de Agosto de 1829, Mr. Spark anuncia venda,
entre outros itens, de cerveja “East India Pale Ale”


Embora registros comprovem que, no fim da década de 1760, cervejeiros foram alertados que era “absolutamente necessário” colocar uma carga adicional de lúpulo à cerveja destinada ao consumo em localidades de clima mais quente, não há (até então) qualquer evidência que ligue este conselho à exportação de cervejas mais lupuladas por qualquer fabricante — nem mesmo George Hodgson, dono da Bow Brewery, a quem se credita o pioneirismo em incrementar a lupulagem das cervejas exportadas para o Oriente, o que fez com sua Pale Ale.

Romantismos, controvérsias e imprecisões à parte da versão que vingou no imaginário lupulado popular acerca da origem do estilo India Pale Ale que tanto amamos, o fato é que ele — até que uma nova pesquisa revele o contrário — nasceu na Inglaterra e sua história envolve mais diversos personagens (Companhia das Índias Orientais; Guerras Napoleônicas; a cidade de Burton-on-Trent; Samuel Allsopp e sua cervejaria; entre outros), que por si só valeriam uma nova postagem n’A Perua da Cerveja.

Sendo assim, sorvidos os goles históricos sobre Citra, Session Beer e India Pale Ale, que tal apurar nossos sentidos para a Citra Session India Pale Ale, da Green Flash Brewing?



Citra Session India Pale Ale
- 4,5% ABV (Álcool)
- 65 IBU’s
- Lúpulo Citra
Um líquido dourado, com leves reflexos acobreados, é coroado por uma espuma branca de ótima formação e persistência. Feita especialmente para a “Odisseia Lupulada” da Green Flash, a cerveja faz jus ao “Citra” que carrega no nome e em sua receita, proporcionando ao olfato as notas frutadas e cítricas que este lúpulo prenuncia: manga, maracujá, nectarina, damasco, um abacaxi de vez, ainda verde, com toda sua pujança ácida, e também laranja, mas insinuando o doce em compota. Há ainda um pouco de capim-limão, embora sufocado pelas frutas, porém ali, presente. Um quê de spicy comparece, leve. Há algo, fraco, de isovalérico, aquele odor típico dos queijos azuis, mas sem comprometer o buquê aromático da cerveja; pelo contrário, somando e dando complexidade ao todo. Como uma session beer deve ser, tem um bom drinkability, afiançado por seu corpo, leve a ponto de sugerir uma sensação de que a cerveja não se realiza, não chega lá, quando, na verdade, sua formulação intenciona este elevado grau de leveza. Na boca, o amargor grita, como Jack Torrance n’O Iluminado, buscando uma analogia apropriada quanto à sua intensidade, e é cortante como o fio do machado deste personagem de Jack Nicholson. Ao passo do relógio, o sabor amargo inicial sofre progressiva suavização, mas perdura, não some. Notas sutis de limão e pinho complementam o paladar herbal desta Citra Session India Pale Ale que diz ao que veio: ser bebida, MUITO bebida!

Não perca a próxima postagem, com a Parte II das cervejas degustadas da Green Flash Brewing Co.Soul Style IPA, Imperial IPA e Green Bullet. Até lá!

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Postagem e fotos:
RÔMULO COELHO
Jornalista, poeta, assumidamente nerd, amante da boa gastronomia e sommelier de cervejas formado pela parceria Doemens/SENAC.


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