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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

GREEN FLASH BREWING CO. — Parte II

“Soul” em português significa “alma”. Com a Soul Style, a Green Flash Brewing Co. quer oferecer uma cerveja cuja experiência de beber proporcione ao consumidor tudo que em sua memória olfativa e gustativa remeta ao prazer singular de uma IPA, características peculiares e de forte identidade que componham a “alma” de uma India Pale Ale (à escola norte-americana, é óbvio): um amargor marcante aliado à citricidade, um frutado exuberante e potentes notas herbais. Várias IPA’s numa só, que, pretensiosamente, procura resumir no copo a “alma” desse estilo que é a bandeira da craft beer culture. Em suma, nada mais do que o próprio nome da cerveja já anuncia: uma Soul Style IPA. Intensa e única como a soul music, que nasceu nos EUA no fim dos anos 1950 entre os negros, oriunda do gospel e do rhythm’n’ blues, e despontou mundo afora na década de 1960. Uma música envolvente que fala fundo à alma e descalabra o corpo pelo ritmo. O que, afinal, pretende a Soul Style IPA: falar fundo à alma de quem a bebe e descalabrar seus sentidos com o amálgama de sensações que ele promete como “alma” do estilo India Pale Ale.



Soul Style IPA
- 6,5% ABV (Álcool)
- 75 IBU’s
- Lúpulos Citra, Simcoe e Cascade
Inebriante, para dizer o mínimo. Esta American IPA da Green Flash é uma cerveja tão perfumada que os aromas até atropelam a apreciação visual da cerveja no copo. Sob um creme branco e denso, de excelente formação e persistência, um líquido, cuja cor está no meio da estrada entre o âmbar e o tom acobreado, aguarda nosso gole sedento. Prepare-se para a “tropicalidade” anunciada no rótulo, pois é isso que você vai receber! Um soco de manga, daquelas de vez, entra pelas narinas, levando junto notas intensas de abacaxi e maracujá, seguidas por um perfume floral — talvez flor de laranjeira — e um impressionante frescor de grama recém-cortada. Há um quê de condimentado também perceptível e uma distante, longínqua nota sulfurosa, qual um pano molhado, nada alarmante, mas que não compromete e apenas contribui com a rica complexidade do buquê aromático da bebida. Uma mostra, enfim, de que os americaníssimos lúpulos Citra, Simcoe e Cascade disseram a que vieram. Facílima de beber, fresca em abundância, com um corpo leve, embora a caminho de médio, esta cerveja de elevado drinkability premia o paladar com um amargor mais rascante, de força herbal, que acompanha todo o gole até o fim, levemente adocicado, que faz rememorar as notas frutadas tropicais que haviam brindado o olfato, e ao arremate seco que incita a uma nova e generosa golada. O amargor residual prolonga-se para confirmar não só um saboroso percurso de degustação, mas também, como diria a Rainha do Soul, Aretha Franklin, que a Soul Style IPA merece “RESPECT”.

IBU. Aos assíduos leitores d’A Perua da Cerveja, nenhuma novidade. Porém, aos novos amantes de cervejas artesanais, atenção! A sigla IBU significa International Bitterness Unit, ou “Unidade Internacional de Amargor”. Logo, se você se deparar com uma cerveja com mais de 100 IBU’s, como esta Imperial IPA da Green Flash Brewing, prepare-se, amigo, para uma hecatombe de amargor! Em algumas cervejas mais, em outras menos, trata-se de uma questão de equilíbrio. Além do pronunciado amargor, o estilo Imperial IPA, ou Double IPA, apresenta um teor alcoólico mais elevado, oriundo da utilização de uma carga maior de malte, cujo dulçor decorrente serve para equilibrar a receita.

Se o movimento craft beer norte-americano reinventou a India Pale Ale britânica, coube à essa nova escola cervejeira elevar os seus limites e forjar um novo estilo, apropriadamente cunhado de Imperial India Pale Ale. Fazendo as vezes de sufixo de intensidade, o termo “imperial” bebe na tradição inglesa que o utilizou para rebatizar as Stouts com maior teor alcoólico e concentração de lúpulo produzidas para atender ao czar russo, Pedro, o Grande, e sua corte, no início do século XVIII. O “imperial”, portanto, traduz o caráter extremo da Double IPA norte-americana.

Fabricada em 1994, em Temecula, na Califórnia, pelo então jovem Vinnie Cilurzo — à epoca, sócio da Blind Pig Brewing Co.; hoje, dono e mestre-cervejeiro da aclamada Russian River Brewing Co. —, a cerveja Blind Pig Inaugural Ale é considerada a primeira Imperial India Pale Ale comercial da história. Dito tudo isto, que tal desvendar a história de aromas e sabores que a Imperial IPA da Green Flash nos reserva no copo?



Imperial IPA
- 9,0% ABV (Álcool)
- 101 IBU’s
- Lúpulos Summit e Nugget
Aos olhos, um dourado fechado, com forte inclinação para o cobre, é complementado por uma espuma clara, de boa formação e média a baixa retenção, haja vista o elevado grau alcoólico. O lúpulo norte-americano Summit, de pegada cítrica, e o alemão Nugget, de características herbais e picantes, utilizados sem economia e com extrema generosidade, já adiantam os aromas que vêm a seguir. Num primeiro instante, há uma nota bem peculiar de lúpulo, um cítrico assertivo, qual casca de limão, enlaçado a um perfume condimentado instigante. Depois, um tapa de éter mostra a potência dos 9,0% de álcool. Frutas, como abacaxi, laranja, grapefruit e damasco, complementam o perfil aromático. De corpo médio, com um toque macio para leve na língua, apresenta um amargor fortíssimo, de caráter herbal, desde o início do gole, que persiste, deixando uma sensação resinosa na boca. O paladar amargo é acentuado, porém, não agressivo, o que demonstra o equilíbrio com o dulçor, perceptível, de sua boa base maltada. Ao fim do gole, sente-se um aquecimento na garganta provocado pelo álcool desta acertada Imperial IPA.




Recorde tudo que leu anteriormente sobre Imperial IPA, ou Double IPA. Pois bem, basta dizer que a Green Bullet é uma Triple India Pale Ale para se ter uma noção do caráter mais que extremo de amargor que podemos esperar dessa cerveja. Inicialmente criada para comemorar o 9º aniversário da Green Flash Brewing Co., em 2011, ela angariou tantos fãs-bebedores que a partir de 2013 passou a integrar a linha sazonal da cervejaria, neste caso, de setembro a dezembro.

Cerveja inédita no Brasil, desenhada para atordoar até mesmo os mais fanáticos hop hunters, ou “caçadores de lúpulo”, ela buscou lúpulos neozelandeses para lhe conferir um perfil diferenciado e marcante: o Pacific Gem, utilizado tipicamente para conferir amargor, além de trazer notas frutadas e amadeiradas; e o Green Bullet, de excelente poder de amargor e também notabilizado por suas notas frescas de pinho e limão.

Para arrematar, ela recebe ainda um dry-hopping do lúpulo Green Bullet que lhe dá nome — lembrando que o dry-hopping é um procedimento utilizado para incrementar o aroma da cerveja sem elevar seu amargor e cuja técnica consiste em adicionar lúpulo durante a fase de fermentação, de maturação ou até mesmo no próprio barril da bebida. Sem mais delongas, vamos degustá-la?



Green Bullet
- 10,1% ABV (Álcool)
- +100 IBU’s
- Lúpulos Pacific Gem e Green Bullet
Uma espuma bege, bem formada, de média a baixa retenção, é o abre-alas de um líquido de coloração âmbar que, conceitualmente, promete ser hardcore. Um chute de isovalérico, aquele já falado odor próprio aos queijos azuis, invade todo o aroma pelas quantidades grosseiras de lúpulo utilizadas nessa receita para criar não uma Double, mas uma Triple India Pale Ale. Em meio a esta forte e intensa fragância lupulada, é possível sentir notas cítricas, de pinho, e também de caramelo, por conta da excelente base maltada arquitetada para dar suporte e equilíbrio à lupulagem cavalar da receita. Pimentão, um que de spicy e o álcool, com seus 10,1% também comparecem, acompanhados lá no fim da fila, distante, por uma nota de anis estrelado. De corpo médio, ela deixa certo travo na língua, tal a aspereza provocada pelos lúpulos. À boca, o dulçor pretendido — e alcançado — é bastante perceptível, propiciando um sabor amargo intenso, duradouro e equilibrado, por incrível que pareça, afinal, sua proposta inicial era agressividade. O aquecimento na garganta é muito leve, apesar dos 10,1% de álcool, o que demonstra sua inserção certeira. O final é seco, seco e seco. Com o perdão do trocadilho, a Green Bullet é um tiro de cerveja!

O que fica, enfim, desta experiência degustatória proporcionada pela importadora Buena Beer, ao alcance do consumidor brasileiro nas prateleiras das lojas especializadas e em bares, é o diferencial do frescor do lúpulo, possibilitado pela complexa logística de importação via avião. Não há como beber cervejas norte-americanas mais frescas — pelo menos em solo brasileiro! E garanto, amigos: vale cada gole!

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Postagem e fotos:
RÔMULO COELHO
Jornalista, poeta, assumidamente nerd, amante da boa gastronomia e sommelier de cervejas formado pela parceria Doemens/SENAC.


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